Às vezes, encontramos uma repetição desnecessária, uma construção ambígua, uma combinação de sons pouco agradável ou uma inadequação gramatical. Tradicionalmente, muitos desses usos são chamados de vícios de linguagem.

Mas esse assunto merece uma explicação cuidadosa. Nem toda repetição é um problema, nem toda ambiguidade é um erro e nem todo estrangeirismo deve ser evitado. O contexto, a intenção comunicativa e o gênero textual interferem diretamente na avaliação dessas construções.
Neste artigo, você vai entender o que são vícios de linguagem, conhecer os principais tipos e aprender a perceber quando determinado uso realmente prejudica a clareza e a construção do sentido.
O que são vícios de linguagem?
De maneira tradicional, chamamos de vícios de linguagem determinados usos que podem comprometer a clareza, a precisão ou a expressividade de uma mensagem. Eles podem ocorrer tanto na fala quanto na escrita.
Alguns estão relacionados à norma-padrão, como determinados problemas de concordância ou regência. Outros dizem respeito ao estilo e à construção do texto, como repetições excessivas, ambiguidades involuntárias e combinações sonoras pouco harmoniosas.
É importante, porém, não interpretar o conceito como se qualquer ocorrência de uma dessas construções fosse automaticamente inadequada. A linguagem depende do contexto.
Uma repetição que prejudica um relatório pode ser intencional, mas pode ser expressiva em um poema. Uma ambiguidade que causa confusão em uma instrução pode ser utilizada propositalmente em uma propaganda ou em uma piada.
Por isso, mais do que decorar uma lista de “erros” relacionados aos vícios de linguagem, o importante é compreender o efeito produzido pela escolha linguística.
Os vícios de linguagem é necessariamente um erro?
Nem sempre, veja a expressão: “Vi com meus próprios olhos.”
Em uma situação cotidiana, poderíamos considerar “com meus próprios olhos” uma informação redundante. Entretanto, alguém pode escolher essa formulação justamente para enfatizar que presenciou determinado acontecimento.
A repetição passou a cumprir uma função expressiva. Algo semelhante acontece com a ambiguidade, por exemplo, em um contrato, uma frase ambígua pode causar sérios problemas de interpretação. Em uma campanha publicitária, o duplo sentido pode ser intencional e criativo.
Essa distinção é importante porque a língua não funciona apenas por regras isoladas. Ela também produz efeitos de humor, ênfase, ironia, persuasão e emoção.
Principais vícios de linguagem

A classificação pode variar conforme a gramática consultada, mas alguns tipos aparecem com frequência no estudo tradicional da Língua Portuguesa.
| Tipo | Característica principal | Exemplo |
|---|---|---|
| Pleonasmo vicioso | repetição desnecessária de uma ideia | subir para cima |
| Ambiguidade | possibilidade involuntária de mais de uma interpretação | Vi a menina com o telescópio |
| Cacofonia | encontro de sons que produz efeito indesejado | uma mão |
| Barbarismo | inadequação de pronúncia, grafia ou emprego de palavra | beneficiente por beneficente |
| Solecismo | inadequação sintática | fazem dois anos |
| Eco | repetição sonora excessiva | divulgação da promoção |
| Estrangeirismo desnecessário | uso de termo estrangeiro sem necessidade comunicativa | meeting em lugar de reunião |
A tabela ajuda a visualizar as diferenças, mas alguns desses fenômenos merecem atenção especial.
Pleonasmo vicioso: quando a repetição não acrescenta informação
O pleonasmo ocorre quando uma informação é repetida. Em construções como:
subir para cima – Quem sobe necessariamente realiza um movimento em direção superior
entrar para dentro – esta expressão repete uma informação já contida no verbo
sair para fora – verbo sair já carrega, por si só, a ideia de ir de dentro para fora.
Quando essas repetições ocorre sem intenção expressiva, costuma ser classificada como pleonasmo vicioso.
Mas há uma diferença importante entre esse fenômeno e o pleonasmo estilístico. Em literatura, publicidade ou discurso, repetir uma ideia pode reforçar determinado efeito.
Portanto, o problema não está simplesmente na repetição. Está na repetição sem função comunicativa relevante.
Ambiguidade: quando uma frase permite mais de uma interpretação
A ambiguidade ocorre quando uma construção admite dois ou mais sentidos. Observe:
Vi a menina com o telescópio.
Quem estava com o telescópio? A pessoa que viu a menina ou a própria menina?
Sem informações adicionais, as duas leituras são possíveis. Agora considere:
Carlos contou a Pedro que seu relatório estava incompleto.
De quem era o relatório?
De Carlos ou de Pedro?
O pronome seu não deixa a referência suficientemente clara.
Em textos que exigem precisão como instruções, documentos, textos acadêmicos ou informativos, as ambiguidades involuntárias podem dificultar seriamente a compreensão.
Entretanto, a ambiguidade também pode ser proposital. Propagandas, poemas, charges e textos humorísticos frequentemente exploram mais de um sentido para produzir determinado efeito.
Por isso, novamente, o contexto é decisivo.
Cacofonia: quando o encontro das palavras cria um som inesperado
A cacofonia surge quando a combinação sonora entre palavras produz uma sequência desagradável ou uma nova palavra involuntária. Um exemplo tradicional é:
Uma mão estava apoiada na mesa.
Na sequência sonora de “uma mão”, pode-se ouvir algo semelhante a “mamão”.
Nem toda aproximação sonora precisa ser tratada como problema. Ela se torna relevante principalmente quando distrai o leitor ou ouvinte e interfere no efeito pretendido pela mensagem.
Em textos destinados à oralidade — discursos, apresentações e gravações — a leitura em voz alta é uma excelente maneira de identificar esse tipo de ocorrência.
Barbarismo: inadequações no uso das palavras
Tradicionalmente, o barbarismo corresponde a inadequações relacionadas à pronúncia, grafia, formação ou emprego de palavras.
Um exemplo conhecido é: beneficiente, mas a forma registrada na norma-padrão é: beneficente.
O conceito também pode aparecer relacionado a determinadas pronúncias ou ao uso inadequado de palavras estrangeiras.
Entretanto, é importante ter cuidado: a língua muda constantemente e muitas palavras que um dia foram estrangeiras passaram a integrar normalmente o português.
Portanto, a presença de uma palavra estrangeira não significa automaticamente que exista um vício de linguagem.
Solecismo: inadequações na estrutura da frase
O solecismo, por incrível que pareça, é sm um dos vícios de linguagem e ocorre quando há inadequação sintática, especialmente em aspectos de concordância, regência ou colocação. Veja:
Fazem dois anos que ele saiu.
Na norma-padrão, quando o verbo fazer indica tempo transcorrido, ele é impessoal: Faz dois anos que ele saiu. Outro exemplo:
Assisti o filme ontem. Na norma-padrão, quando assistir significa ver ou presenciar, tradicionalmente se recomenda: Assisti ao filme ontem.
Essas ocorrências são especialmente relevantes quando o contexto exige o domínio da norma-padrão, como provas, textos formais e determinadas situações acadêmicas.
Eco: quando a repetição sonora prejudica a fluidez
O eco acontece quando sons semelhantes se repetem de forma excessiva e involuntária. Veja:
A divulgação da promoção causou grande repercussão.
A repetição das terminações pode tornar a frase pouco agradável, principalmente quando aparece muitas vezes em um mesmo trecho. Isso não significa que palavras com terminações semelhantes sejam proibidas.
Mais uma vez, precisamos observar o efeito. Na poesia, repetições sonoras podem ser deliberadamente utilizadas para produzir ritmo. Em um texto informativo, podem causar monotonia.
Estrangeirismo: sempre devemos evitar?
Não, porque essa é uma distinção importante. Palavras de outras línguas entram continuamente no português. Termos como software, marketing e internet, por exemplo, são amplamente utilizados.
O problema pode surgir quando o estrangeirismo é empregado sem necessidade e dificulta a compreensão. Imagine:
Precisamos fazer um meeting para alinhar o budget antes do deadline.
Se os interlocutores conhecem perfeitamente esses termos e eles fazem parte da linguagem daquele grupo, a comunicação pode funcionar. Mas, se houver equivalentes claros em português e parte do público não compreender as expressões, talvez fosse mais adequado dizer:
Precisamos fazer uma reunião para alinhar o orçamento antes do prazo.
A melhor escolha depende do público e da situação comunicativa.
Como identificar vícios de linguagem em um texto?
Uma boa revisão não deve começar com uma caça mecânica a palavras “proibidas”. Comece perguntando se a mensagem está clara.
Depois observe se alguma construção permite uma interpretação que você não pretendia, se há repetições desnecessárias, se os pronomes possuem referentes claros e se as relações gramaticais estão adequadas ao contexto.
Também vale ler o texto em voz alta. Essa prática ajuda a perceber ecos, cacofonias e frases excessivamente longas. Por fim, pergunte se determinada construção está realmente prejudicando a mensagem ou se cumpre uma função expressiva. Essa última pergunta evita uma visão rígida da língua.
Vícios de linguagem, contexto e construção do sentido

Estudar vícios de linguagem não deveria significar apenas decorar uma lista do que “pode” ou “não pode”. O aspecto mais interessante está em compreender como determinada escolha interfere no sentido e na experiência de quem recebe a mensagem. Uma ambiguidade pode confundir ou provocar humor.
Uma repetição pode tornar o texto cansativo ou produzir ênfase; uma expressão estrangeira pode dificultar o entendimento ou ser perfeitamente adequada a um grupo especializado.
É o contexto que ajuda a fazer essa avaliação. Por isso, desenvolver consciência linguística significa aprender não apenas regras, mas também perceber efeitos de sentido.
A pergunta mais produtiva talvez não seja: “Essa construção é proibida?”, mas perguntar: “Que efeito essa escolha produz neste texto, para este público e nesta situação?”
É justamente essa capacidade de observar a língua em funcionamento que torna nossa comunicação mais consciente, clara e eficiente.
Você já tinha estudado sobre os vícios de linguagem com esta profundidade e com esta perspectiva mais reflexiva sobre a comunicação?

Especialista em linguagem (Língua Portuguesa) com foco na linguística funcional e pragmática e mais de três décadas de vivência corporativa. O objetivo é aumentar a percepção sobre o uso da linguagem nas relações sociais e no contexto do trabalho. Afinal, somos permeados pela linguagem!
